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QUANDO NÃO TÍNHAMOS ONDE CAIR MORTOS.

cemiterio-2

QUANDO NÃO TÍNHAMOS ONDE CAIR MORTOS.

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Por Alex Esteves da Rocha Sousa.

O primeiro cemitério protestante brasileiro foi criado em 28 de agosto de 1811, no interior Alexde São Paulo, por determinação contida em Carta Régia do Príncipe Regente D. João VI, para sepultamento de um carpinteiro sueco, já¡ que protestantes não eram aceitos em cemitérios católicos. A Reforma Protestante estava prestes a completar 300 anos…

Na Carta Régia, D. João VI mandou escrever:

“também vos encarrego a cuidar e que aí­ se estabeleça, e conserve em boa ordem um terreno, que sirva de cemitério aos ingleses e suecos, e em geral aos que não forem membros da Nossa Santa Religião, permitindo-lhes também que em suas casas particulares, e sem forma de igreja, possam reunir-se para o culto particular, que dirigem ao Ente Supremo, e no qual vigiareis, não possam jamais serem inquietados pelos habitantes do paí­s, o que muito vos é recomendado”  (extraí­ essas informações de reportagem do portal G1).

Pode-se ver nesse episódio um verdadeiro Estado de religião oficial (não laico); um exemplo de verdadeira intolerância religiosa; a atitude concessiva do monarca… Mas o que me fez pensar mais foi a lembrança deste dispositivo da Constituição Imperial que em 1824 seria outorgada por D. Pedro I, filho de D. João VI (na redação que consta do site do Planalto):

“Art. 5. A Religião Catholica Apostolica Romana continuará¡ a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior do Templo”.

Naquela época, portanto, cultos nas casas eram uma concessão do Imperador, porque a religião evangélica não podia ostentar “forma alguma exterior [de] Templo”.

Com o passar do tempo, conquistamos liberdade de religião, o Estado se tornou laico, e igrejas protestantes se espalharam pelo paí­s, ora pela ação de missionários estrangeiros vindos de igrejas históricas americanas ou europeias, ora pela ação de convertidos que migravam de uma parte para outra do vasto território nacional, ganhando grande impulso a evangelização com o Movimento Pentecostal (1910-1911), e, depois, com pregações em massa e nas rádios (1940-1950). Livres para exercer sua religião, os evangélicos puderam construir seus templos. Cultos nas casas continuaram sendo realizados para evangelização e discipulado, mas sem que tivessem o condão de substituir as reuniões nos templos.

Mas há  também no Brasil, assim como em outras partes do mundo, um movimento diversificado, em certo sentido de matiz “restauracionista”, e com origens distintas, que valoriza os cultos nas casas em detrimento da centralidade dos templos. Inserem-se nesse contexto as igrejas que, sem denominação, passaram a ser denominadas “igrejas locais”.

Outra tendência, esta decisivamente pós-moderna, é a dos “desigrejados”, que se dizem cristãos, mas que, por motivos inúmeros, se levantam contra a necessidade de congregar, de ter um pastor, de contribuir financeiramente com a igreja.

Alguns deploram a organização em templos e tudo o que disser respeito a uma institucionalização evangélica porque veem nisso formalismo, hipocrisia, fonte de contentas, exploração da fé. Não percebem que são eles que se importam demais com o aspecto institucional, o qual, contraditoriamente, exaltam enquanto pensam questiona-lo. Ademais, alguns parecem ter vergonha do espaço eclesiástico, embora guardem em sua consciência a suposição de que fazem tudo para facilitar a aproximação de amigos não convertidos.

Um grande pesadelo seria o Estado brasileiro, quem sabe um dia, adotar também essa “teologia” contra os templos, e começar a dificultar sistematicamente a destinação de edifícios e salões a reuniões evangélicas, sob pretextos variados (questões ambientais, tributárias, de função social, de direito de vizinhança…). Para isso poderia contribuir, quiçá, um daqueles teólogos esquerdistas que já estão infiltrados em nosso meio…

Aí, todo mundo teria saudade daquele lugar que por muitos é atacado, criticado, menosprezado, onde os crentes tinham liberdade para louvar a Deus, ouvir a Palavra, anunciar o Evangelho, realizar suas atividades, sem nenhum constrangimento.

**o autor é pastor auxiliar na ADESAL, filiado a CONFRAMADB, possui graduação em Direito pela Universidade Federal de Viçosa (2001). É Analista do MPU/ Assessor-Chefe da Assessoria Jurídica da Procuradoria da República na Bahia (Ministério Público Federal). Bacharel em Teologia (FATHEL, Campo Grande/MS). 

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Pastor Dário Gomes é o pastor auxiliar da ADESAL – MARECHAL RONDON Setor 21 Salvador – Bahia. Com mais de 320 artigos publicados e milhares de acessos todos os dias, é autor de um dos blogs mais lidos da Bahia.

dariogomespr@hotmail.com

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